top of page
Buscar

O que a dança nos ensina sobre corpo, terra e liberdade?

27 de set.
12 min de leitura

Diante da pergunta o que a dança nos ensina sobre corpo, terra e liberdade?, criei um pequeno glossário. Mas há uma diferença significativa entre ele e os glossários habituais: ele não visa explicar, mas implicar.


Visa fazer com que a gente se implique nas palavras, ações e conceitos apresentados. Implicar no sentido de envolver-se, enredar-se, comprometer-se; também de tornar necessário, tornar imprescindível; ou até mesmo de antipatizar, problematizar, complexificar.


Exemplo: O mapa mundi é uma determinada explicação do mundo. Uma. Não a única. Se a gente não se implica no mundo em que vivemos, ficamos sem saber que a Groenlândia não é daquele tamanho todo, que os países do Ártico estão bem próximos, que o Irã é persa e não árabe, que a capital do Brasil não é Buenos Aires, que o Japão não é o país da paz.


Válido contar para vocês que todos os entendimentos sobre estas palavras, assim como os modos que, a cada momento da minha vida, reflito como posso responder a essa pergunta lançada para nós no dia de hoje, está intimamente relacionada com o que eu aprendi com esse poeta dançarino feiticeiro chamado Tatsumi Hijikata. O que descobri com ele nos vinte anos que danço butô e nos cinco (agora seis) anos imersos nos textos dele. Mesmo com o livro publicado, Daniel e eu continuamos a aprender muito com ele.


Muito bem, comecemos nosso glossário de implicações com a palavra corpo.


Corpo não é um objeto que possuímos, mas o que somos. Tudo o que somos, é corpo. O corpo, nutrido de terra, é terra também. É o território onde a vida acontece. É campo de criação, onde novas formas de viver podem brotar. É também o campo onde os poderes se inscrevem. Corpo é algo que precisa ser nutrido, senão perece. Corpo nunca é estático. Até o corpo dos mortos está em movimento. Há muitos mortos, aliás, que dançam! O que costuma ser chamado de mente ou de espírito é, em realidade, corpo. Sonho com o dia que todos comecem a falar MenteCorpo, tudo junto. Um só.


Para adubar ainda mais nossas MentesCorpos, recordemos alguns corpos e expressões sobre corpo, com corpo: corpo humano, corpo docente, corpo discente, corpo de baile, corpo de delito, tirar o corpo fora, encontraram o corpo desovado na mata, já tinha corpo para a idade dele, o corpo do texto, o corpo estranho, ganhar corpo, perder corpo, o corpo da linguagem, corpo mole, corpo fechado, corpo pesado.


Se formos entrar em variações da palavra — encorpar, ter sangue nas veias, sentiu na carne, ficaram cara a cara — ficaremos aqui o dia todo. Fiquemos com esses corpos por enquanto.


Terra: chão… que não é só chão.


Corpo vivo que nutre, devora, sustenta e atravessa os nossos corpos.

Também é o nome dado pelos habitantes de uma bola de rocha com coração de metal, cuja superfície é majoritariamente água. O terceiro planeta do nosso sistema solar.


Na geologia, é terra é camada onde as plantas crescem, ondem os animais devoram e são devorados, onde também criam alianças. Onde o humano alicerça os fundamentos de suas casas, de suas ideias, de seus desejos e sonhos.


Apesar de existir o termo terra natal — que designa o local onde alguém nasceu, a suposta origem de alguém — é justamente a terra que desfaz nossas certezas acerca da nossa individualidade e independência, anunciando a todo instante nossa dependência, nossas interligações, nosso desfazimento após a morte.


A terra é, ao mesmo tempo, útero e túmulo. Dentre as expressões mais interessantes estão “voltou à terra” (morreu), “chão de terra” (demonstra simplicidade), “pés no chão” (denota alguém firme, realista, prático, que não se ilude). Mas nesta pesquisa me assombrei com a quantidade de termos perigosos: a já citada “terra natal” pode desembocar em “minha terra”... ou em “terra prometida”. Terra de ninguém, terra sem lei, terra de cego (onde quem tem olho é rei), terra arrasada…


Diante disso, torna-se necessário diferenciar terra de território.


Território: As expressões mais populares que utilizam o termo são: território desconhecido, marcar território, território familiar, território inimigo, território neutro, entrar em territórios perigosos, fora do meu território.


Mais do que um espaço geográfico, território é um conjunto de relações que se estabilizam. É onde fluxos, forças, sentidos, ganham forma. Cidades são territórios. Casas também. Salas de aulas. Um estilo de música. Comunidades. A identidade de um grupo. O corpo.


Apesar de sua característica formadora e estabilizadora, territórios são sempre dinâmicos. Quando nos deparamos com determinados territórios cujas formas estão deveras cristalizadas, rígidas, antiquadas, se opondo à toda e qualquer transformação, isto não diz respeito aos territórios, mas aos poderes que estão dominando-os, impondo certas formas como normas.

Deleuze e Guattari, dois filósofos que me auxiliaram a compreender como Hijikata compreende o corpo enquanto território, falaram a respeito de três movimentos que ocorrem nesse entendimento de território.


A territorialização: que é quando algo se fixa, se estabelece;

A desterritorialização: quando algo escapa, alterando o estabelecido;

A reterritorizalização: quando algo se reorganiza.


Eles creem que a vida se dê constantemente nestes três processos de constante movimento dos corpos e dos territórios. O problema é que os sistemas de poder aprenderam operar modos de controlar tais engrenagens. Infelizmente, antes de falar sobre liberdade e dança, precisarei falar sobre estes sistemas de poder que nos impedem, justamente, de viver danças e liberdades.

Trago então para nosso glossário a palavra biopolítica.


Biopolítica: O termo, cunhado por Michel Foucault, descreve um poder que não quer apenas punir, mas gerir a existência. Saúde, reprodução, sexualidade, produtividade e consumo tornam-se objetos de gestão estatal. A estratégia deixa de ser apenas a ameaça da morte para se tornar o adestramento da vida; o objetivo é formatar os corpos em algo útil, dócil, lucrativo. Aqueles que se opõe a isso, ou que não podem auxiliar no cumprimento das metas deste poder, encontram o forro da biopolítica: a necropolítica.


Necropolítica: Se a biopolítica decide como se deve viver, a necropolítica decide quem deve morrer. Enquanto Foucault focava na normalização dos sujeitos, o filósofo Achile Mbembe — criador do conceito de necropolítica — nos mostra que certos grupos são deliberadamente expostos ao abandono e à violência letal. É o poder de decidir quais vidas importam e quais são descartáveis.


Como esse poder, que parece tão abstrato, nos alcança? Foucault dirá que é por meio de uma microfísica do poder. Ele propõe que o poder não emana apenas de um centro único — o Rei ou o Estado — mas é uma rede capilar e onipresente. Enquanto a macropolítica foca nas leis e nas pirâmides institucionais, a microfísica revela uma teia que enreda nossos cotidianos, desejos, relações. Essa trama está nas nossas carnes. Se faz por meio de nós. Se faz na fala e no olhar de cada pessoa. Como disse Foucault: "O poder está em toda parte; não porque englobe tudo, mas porque provém de todos os lugares".


Isso ocorre porque o corpo será disciplinado desde cedo para tal. Curiosamente, a eficácia da biopolítica em administrar e regular a vida em larga escala está na disciplinarização dos corpos um a um. Vamos nos implicar mais uma vez nisso por meio de expressões conhecidas por todos.


Na escola ouvimos termos como: controlar a turma; dominar a sala; manter a disciplina; conter os alunos; impor limites; corrigir comportamentos; alinhar os corpos; organizar em filas; formar o aluno; moldar o caráter; punir quem sai da linha; fique no seu lugar; senta direito; fique atento; vigie a turma; monitorar comportamentos; chamar atenção. Atualmente, fala-se também em rendimento, desempenho, aproveitamento e meta de aprendizagem do aluno, evidenciando a obsessão pela produtividade. Mas no geral os termos evidenciam que o corpo do aluno deve ser controlado, disciplinado, domesticado, contido, amansado, civilizado, formatado, moldado.


Na política dos Estados, fala-se em: controle da população; gestão da natalidade; controle sanitário; segurança (dos territórios todos); corpo da nação. Reparem em como o corpo individual aqui é propositalmente ignorado enquanto indivíduo e transformado em um corpo-massa uniforme e homogêneo.


Na Justiça, fala-se em: privação de liberdade; detenção; contenção; imobilização; custódia; isolamento; uso legítimo da força; preso; sob domínio; julgamento; regime; revista; perícia; sentença; pena. O corpo, no judiciário, é um território que é julgado, avaliado, classificado (inocente/culpado) e, muitas vezes, marcado fisicamente pelos desdobramentos da lei (como pagará sua pena… reclusão… morte…). A justiça aplica a norma, definindo como o corpo será contido, cercado, controlado.


Na Medicina: combater a doença; atacar o tumor; rastrear células invasoras, células inimigas; rastrear hostilidades; bombardeio de quimioterapia, bombardeio de radioterapia; linhas de defesa do sistema imunológico; invasão bacteriana. Há um vocabulário completamente bélico na medicina, que evidencia não só que o corpo aparece como um campo de batalha, mas que ignora que nem tudo que é extrangeiro deve ser tratado como inimigo. Além disso, é o poder-saber/saber-poder da Medicina que pautará o que/quem é saudável.


Na Religião fala-se em: possessão do corpo; domínio do corpo; corpo sagrado; purificação, expurgo, expiação do corpo; expulsar o demônio do corpo; fazer a palavra penetrar nos nossos corações; submissão do corpo; corpo impuro; pecados da carne. O corpo é sempre um território em disputa pelas dimensões e forças “espirituais” que, em realidade, são a personificação simbólica das morais, dos valores, dos deveres que cada pessoa deve cumprir. A liberdade e a alegria dos corpos comumente serão lidas como pecado. Todo tipo de aprisionamento psicológico possível e imaginável é possível de ser encontrado neste campo.


Na Economia: Capital corporal; exploração da força de trabalho; extração de valor; capital humano; investir em si mesmo; otimização do desempenho; produtividade do corpo; gestão da energia; desgaste da força de trabalho, desempenho no trabalho; recursos humanos. O corpo é evidentemente compreendido como um recurso natural inesgotável, a terra mais produtiva hoje para o sistema econômico. 


O corpo é o território onde o poder se exerce. É constantemente territorializado por esses sistemas mencionados. Eles não zelam pela vida, mas a moldam, a disciplinam e a definem.

Entretanto, Deleuze e Guattari nos lembram: se há um micropoder a nos sitiar a todo instante, é possível fazer frente a ele por meio de uma micropolítica.


Micropolítica: são os processos éticos, políticos, sociais, culturais que ocorrem entre os sujeitos, no encontro corpo a corpo. É o que configurar os contornos da realidade em seu movimento contínuo de criação coletiva. É a política que fazemos nos pequenos gestos, nos pequenos encontros, nos pequenos momentos de intimidade e entrega. É aquilo que ocorre no cotidiano e, apesar de sua dimensão, é capaz de desafiar e reorganizar o poder. A micropolítica cria, em pequena escala, o mundo que queremos em grande escala.

É aqui que finalmente podemos chegar na palavra liberdade.


Liberdade: aqui, não vislumbra um rompimento completo com todos os sistemas que nos cerceiam, mas a capacidade de criarmos outros modos de existirmos frente aos poderes que nos atravessam. Que a gente possa encontrar modos de, pouco a pouco, reivindicar um pouco de nós a nós mesmos. Não entregando tudo eles. Não deixando que eles esses sistemas nos tomem tanto. Liberdade como a capacidade de nos deslocarmos — afetivamente, sensorialmente, moralmente, politicamente — das formas que nos aprisionam. É o drible, o bug, o hackeamento do sistema, que precisamos aprender a dar para supraviver.


Supraviver, pois acredito que todos aqui estão cansados de apenas sobreviver… sobreviver é uma frente reativa a tudo e todos que nos impedem a vida; supraviver é encontrar modos ativos de potencializar a vida em busca do bem-viver… fazer com que o corpo deixe de reagir apenas ao que o captura e passe a agir a partir daquilo que aumenta sua potência, sua alegria, seu prazer; desterritorializando, assim, o que nos engessa, para reterritorializar os nossos corpos em novas possibilidades de vida.


É aqui que entra, para mim, a dança.


Dança: é comumente compreendida como uma manifestação artística e cultural que utiliza movimentos corporais ritmados, geralmente acompanhados por música, para expressar emoções, sentimentos e histórias. Como forma de linguagem, pode ser individual ou coletiva, coreografada ou improvisada, envolvendo elementos como espaço e tempo. O problema é que muitas vezes é essa explicação do que é dança que nos impede, justamente, de dançar. Foi por isso que Tatsumi Hijikata destruiu todo esse entendimento.


Vamos então nos implicar dança enquanto movimento capaz de fazer com que o corpo deixe de ser apenas território ocupado e passe a ser território de criação, território em criação.

Dançar como possibilidade de experimentar o que pode o seu corpo no mundo e como a potência desse corpo se amplia no encontro com outros corpos. Dançar como uma operação capaz de desestabilizar, diluir, desfazer (desterritorializar) as marcas impostas, abrindo espaço para que o corpo experiencie outras possibilidades de existência, outros modos de existir (reterritorializar).


Para mim, é o butô. Compreendo-o como um operador micropolítico do corpo que converte estados de vulnerabilidade em campo de criação, de resistência, de ressignificação e de combate. Frente a isso, obviamente, eu entendo que o butô é capaz de desterritorializar territorializações, marcações e sitiamentos que acontecem na vida. Ele reivindica o "corpo roubado" pela produtividade e pela moral, convertendo estados de cerco em estados de experimentação. Não é uma dança para "expressar" algo, mas para desestabilizar as marcações que a vida impôs à carne.


Mas e para cada um de vocês? Quais serão suas danças, seus bailes, seus moveres. O que me interessa é instigá-los a encontrar o que é esse dançar para vocês. Entendendo que ele vai para muito além do que se entende no mundo enquanto dança. Qual é a ação mobilizadora da sua vida, cujo cerne é o movimento, e que é capaz de te co-mover? Que é capaz de te fazer sentir mais vivo? De injetar mais vida na sua vida? É isso que eu desejo que você chame de dança por um instante e comece a se implicar em como alargar mais isso na sua vida. Pois tenho certeza que são estas as ações capazes de abrir espaço para encontrarmos o bem-viver.


Sei que essa fala, racionalmente, não muda o mundo. A inteligência e a intelecção não impediram a ascenção fascismo, não auxiliaram este país a uma reforma agrária, não está barrando o fortalecimento da extrema direita. O que falta não são boas explicações. Por isso, que construi essa pala pensando em implicações. Pois o que precisamos é de uma articulação de afetos.


Como ensinou Espinosa, a vida é movida por afetos. São os afetos geram as variações de nossa potência de existir. Alguns afetos aumentam nossa potência (Espinosa chamava esse aumento alegria), outros diminuem nossa potência (Espinosa chamava essa diminuição de tristeza). Grande parte dos bloqueios sociais — do negacionismo climático ao preconceito — não é falta de informação, são afetos organizados em torno do medo, do ressentimento e da indiferença.

Precisamos encontrar estratégias para afetar as pessoas.


Criar micropolíticas que não usem apenas o argumento, mas o sensível. 


Precisamos encontrar modos de desarticular os afetos despotencializadores, que faz com que elas se identifiquem mais com o medo, a culpa, o ressentimento, o ódio; e articular afetos potencializadores, que façam com que elas se identifiquem mais com as alegrias.


É preciso encontrar ações que façam com que estes corpos sintam vínculo com aquilo que antes era abstrato. Pois não será com discursos que conseguiremos isso, mas com experiências.  Não está nos faltando boas explicações. Está nos faltando colocar mais o corpo para jogo. Colocar os corpos em relação. Acreditar que o cerne da transformação está em colocar as nossas carnes em contato e em movimento.


Fazer com que as pessoas comecem a fazer corpo com o corpo do mundo. Proporcionar ações físicas repletas de sentidos, capazes de mobilizá-las à transformações, capazes de fazê-las, enfim, tocar tudo o que pode ser a vida.


Escolas de samba. Parques. Passeios na floresta com o celular desligado. Reivindicar um pedaço de terra público abandonado e não dar paz para quem mora contigo até que todos resolvam ir plantar alguma coisa lá. Focar na sensorialidade das experiências. Levar a atenção aos sinais que os corpos estão dando por estarem sofrendo diretamente os efeitos do colapso climático. Encontrar modos de movimentar o corpo que sejam prazerosos, e não apenas mais uma obrigação a ser cumprida. Modos de mover o corpo com a comunidade, encontrar espaços que te instiguem a deixar brotar o sentimento de pertencimento.


Não gastar energia com as estratégias que já foram esvaziadas. Não organizar ciranda na frente da prefeitura… talvez, quem sabe, uma orgia! Canalizar suas forças naquilo que talvez não mudará o mundo, mas que sem dúvidas irá transformar você e os seus. Crer na potência das pequenas ações cotidianas, preencher o dia-a-dia de terrorismos poéticos: sair colando ou pichando por aí a frase que você mais gosta de seu livro ou filme favorito. Convencer-se e convencer as pessoas próximas que a transformação começa no corpo, no prazer, na presença.


A micropolítica atua desterritorializando as grandes certezas do imaginário retrógrado por meio das experiências: é preciso fazer ver, sentir, experienciar outros modos de vida para que as percepções se alterem. É preciso deslocar o imaginário, o desejo, as expectativas, as certezas das pessoas. E cada vez mais eu acredito menos que isso seja possível pela culpa, constrangimento, pela violência, pelo bate-boca na internet… creio que seja pela sedução, pela simpatia, pelo carisma, pela malandragem.


Práticas corporais que reconectam corpo–terra, não mudam a política diretamente, mas muda quem está disposto a defendê-la. Muda a aderência da população. Importante para mim, no dia de hoje, é que compreendemos que neste baile micropolítico, é possível transformar o que as pessoas desejam para este nosso mundo.


Já existem mais ocupações urbanas — que organizam formas coletivas de moradia — do que tínhamos há décadas atrás. Assim como assentamentos agroecológicos que produzem sem desmatamento, coletivos que praticam uso comum da terra, e inúmeros tipos de redes de apoio territorial. Isso não substitui a reforma agrária, mas evidencia que ela é possível e viável. Saber disso, muda as perspectivas das pessoas. Provar que é possível auxilia a dar corpo aos projetos, fazendo com que mais pessoas apoiem, pois elas veem que não é uma utopia, mas algo a ser conquistado.


Uma luta mais afetiva também nos auxilia a encontrar modos de, caso não seja possível estar na linha de frente, sustentar quem está. Lutas por terra são longas, violentas e desgastantes. Podemos entrar com o cuidado a estes corpos que lutam. Há diversos coletivos que organizam a coleta e entrega de alimentos a terras indígenas, por exemplo. Há diversas atividades de escuta, arte, mobilização política oferecidas pelas lutas, abertas a todos. É possível encontrar as ações que nos aliem, que nos vinculem, que fortaleçam a todos.


Não significa que não exista um política da inimizade que também teremos que sustentar, pois sempre existirão frentes onde relações mais empáticas são impossíveis. Mas no bom embate, no embate que sabe que não é a eliminação do outro que soluciona algo. Se for para ser inimigo, ser um inimigo memorável, apaixonante, invejável… Ao nível de, quando morrermos, nosso inimigo fique triste!


Por fim, digo que Tatsumi Hijikata me ensinou uma dança que me mantém atento às éticas e políticas dessa carne que sou e que está intimamente ligada ao ecossistema. Que é parte do ecossistema. O ponto mais pungente que ele me ensinou foi: se o poder se instaura no corpo com tanta violência, dessensibilizando-o, a tarefa do dançarino é ressensibilizá-lo novamente. Reabilitá-lo a sentir. Conquistando uma liberdade pautada na capacidade de inventar, continuamente, novos movimentos dentro de um sistema paralisante. Reconquistar para mim (e para os meus) o território vivo que sou.


Chamar de dança tudo aquilo que é capaz de ressensibilizar o mundo.



Capoeiristas na rampa do Mercado

Salvador, Brasil, 1946 -1948 Fotos de Pierre Verger





 
 
 

Comentários


  • alt.text.label.Instagram

©2026 por Editora Trevas

bottom of page