Os muitos nomes da inominável carne
- Daniel Aleixo

- 2 de abr.
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Daniel Aleixo
Discurso proferido nos dois eventos do circuito de lançamento do livro Conto do corpo: escritos de Tatsumi Hijikata, realizados, respectivamente, na Casa Farofa, em São Paulo, no dia 13 de dezembro de 2025; na Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro, no dia 30 de janeiro de 2026.
A ideia de que existe uma qualidade inata das coisas, que existem qualidades inerentes ao gênero, ao corpo, à cultura, que os saberes são pré-definidos e não meramente ficções humanas, é um pensamento adotado tanto por inimigos quanto por aliados. Parte de um discurso centralizador e hegemônico, um falso respiro estabilizador. Por melhor ou pior que sejam as intenções, tentar se esgueirar em normas pétreas sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre si mesmo é utilizar a língua permitida pelo inimigo, é tornar-se proprietário, trazendo consigo tudo o que uma propriedade é capaz de fazer para nos afastar uns dos outros: exclusividade, discriminação, limitação, distinção. Do que só eu posso falar? O que é só meu? Qualquer ideia de emancipação não deveria ser pautada no quanto as questões do mundo me pertencem, mas no quanto há em comum entre nós e todas as questões do mundo.
Em Hijikata, não prevalece nenhuma ideia inata de corpo. Não importa quantas vezes ele tenha dançado, algo que ele aprendeu durante a sua vida, tendo passado por companhias de dança durante a juventude e tendo fundado algumas suas, o corpo nunca se manifesta de uma mesma maneira. Parte da sua negação em sistematizar a dança butô, fora o que já sabemos sobre reivindicação por uma dança liberta, também está atrelada ao vislumbre de uma luta impossível em nomear a inominável carne. Ademais, consciente das propriedades flexíveis de etimologia da palavra “corpo” em japonês, Hijikata brinca com isso em seus escritos.
Em japonês, os idogramas 体 e 身 são usados para corpo, mas nenhum deles é o átomo da palavra corpo, nenhum deles é a partícula indivisível de onde partem todos os corpos. Até porque se 体 for dilacerado, encontrar-se-a outros territórios de significado, porque nesse caso, é formado por radicais como “fundamento”, “árvore”, “unidade”, “ser”, “pessoa”, “livro”. E se 身 for dilacerado, será constatado que ele próprio é radical para uma cornucópia de significados os quais passaríamos muito tempo citando.
体 parece ter consciência própria, e como se soubesse ser impossível assumir a singularidade de todos os corpos, ele se une a outros ideogramas e se transforma em sufixo para indicar outras manifestações, assumindo a sonoridade “tai”.
Por exemplo,
身体 (shintai) corpo social, corpo construído a partir da cultura, o corpo no sentido formal, sinônimo de padrão e saúde.
肉体 (nikutai) corpo carnal, corpo orgânico, peça de carne, corpo visceral, corpo de todos os seres vivos, corpo material, artesanal.
肌身 (hadami) corpo cutâneo, corpo de pele, corpo superficial.
人体 (jintai) corpo humano.
裸体 (rattai) corpo nu.
衰弱体 (suijakutai) corpo debilitado por inanição.
死体 (shitai) corpo morto.
物体 (buttai) um corpo disposto no espaço.
躯体 (kutai) corpo esquelético, corpo em partes, fragmento.
主体 (shutai) corpo singular, corpo principal.
自体 (jitiai) o meu corpo, o próprio corpo.
抗体 (kōtai) anticorpo.
気体 (kitai) corpo gasoso.
文体 (buntai) corpo literário.
液体 (ekitai) corpo líquido, fluido.
車体 (shatai) corpo do automóvel.
女体 (nyotai) corpo das mulheres.
幽体 (yūtai) corpo etéreo, espiritual.
病体 (byōtai) corpo doente, afetado por vírus.
Não satisfeito com tamanha abundância, Hijikata desenvolve seus próprios neologismos:
印鑑体 (inkantai) corpo carimbo. Usado para caracterizar um corpo desleixado anexado por remos e varas, capaz de fazer as crianças lembrarem de que podem chorar.
願望体 (ganbōtai) corpo permeado pelo desejo, gerado pela mente faminta do dançarino principiante que quer engolir todo o saber de uma vez sem mastigar.
象徴体 (shōchōtai) corpo simbólico. É quando a carne torna-se alegórica, como ocorre nos teatros ruins, na visão de Hijikata.
童貞体 (dōteitai) corpo virginal masculino. Um corpo que deixou de ser mole e sonolento e tornou-se duro e congelado, a carne que se esqueceu de quem ou do que é ancestral.
A palavra corpo aparece neste livro cerca de 550 vezes. Essa obra conta sobre o corpo, conta o corpo, contam-se os corpos, é um conto do corpo, é um dos contos do corpo, é o conto do corpo, é o conto de um corpo, de vários corpos.
O livro que nós temos em mãos está repleto de mundanidade. Ou seja, tudo que nele está escrito parte de uma atuação real sobre o mundo, de intento político aplicado. E, como estamos falando de Hijikata, de algo que foi dançado ao invés de ser algo pensado para que nós possamos apenas pensar sobre o dançar.
Se eu puder dar um conselho de primeira viagem, procure não ler como uma obra poética inspirada por musas subjetivas, não se restrinja a pensar num escritor ébrio de emoções, rodeado de sensibilidade puramente mental. Leia como se estivesse sentado diante de Hijikata que conversa contigo, que fala sobre um assunto e logo se redireciona para outro, como um errante lúcido pelas vielas da carne. Esse livro tem cheiro, tem sabor, tem textura. Mais do que imaginar, convide-se a dançar o que palavras propõem, menos como um manual de dança, mais como uma série de provocações, sugestões.
Tal qual Hijikata fazia com os seus.



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